sábado, 12 de dezembro de 2009

Ao acender um charuto - Bukowski

Ao acender um charuto
não pedimos misericórdia,
milagres;
(se ao menos houvesse menos moscas ao redor
enquanto refletimos sobre nossas imbecilidades e perdas!)

acendo um charuto, me reclino
lembro
amigos mortos dias mortos amores mortos;
tanto se foi para muitos de nós,
até para os jovens, especialmente os jovens
porque eles perderam o início e têm
o resto do caminho para ir;
mas não é estranho, tudo o que consigo pensar agora são
pepinos, laranjas, terrenos baldios, a
velha cadeia de Lincoln Heights e
os amores perdidos que foram tão ásperos
e quase nos levaram ao extremo,
os rostos agora sem traços,
as camas do amor esquecidas.

a mente é gentil: ela guarda as
coisas importantes:
pepinos
laranjas
terrenos baldios
cadeias.

eu matei uma mosca aquele pedacinho de vida morto

como um amor morto.
costumava haver mais de 100 de nós naquela salona
naquela cadeia
eu estive lá dentro muitas
vezes.
você dormia no chão
homens pisavam na tua cara quando iam mijar.
sempre uma falta de cigarros.
nomes eram chamados durante a noite
(dos poucos sortudos que saíam sob fiança)
nunca você.

não pedíamos misericórdia ou milagres
e não pedimos nada
agora;
pagamos nossas dívidas, ria se quiser,
nós fomos pêlos únicos caminhos que haviam para ir.

e quando o amor veio a nós pela segunda vez
e mentiu para nós pela segunda vez
decidimos nunca mais amar novamente
isso era justo
justo com a gente
e justo com o amor mesmo.

não pedimos misericórdia ou
milagres;
somos fortes o suficiente para viver
e para morrer e para
matar moscas,
assistir às lutas de boxe, ir às corridas,
viver de sorte e perícia,
ficar sozinho, ficar sozinho frequentemente,
e se você não conseguir dormir sozinho
tome cuidado com o que disser enquanto dorme
e
não peça misericórdia
milagres;
não se esqueça:
o tempo existe é para ser desperdiçado,
o amor fracassa
e a morte é inútil.


Tradução de Fernando Koproski

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