Ao acender um charuto
não pedimos misericórdia,
milagres;
(se ao menos houvesse menos moscas ao redor
enquanto refletimos sobre nossas imbecilidades e perdas!)
acendo um charuto, me reclino
lembro
amigos mortos dias mortos amores mortos;
tanto se foi para muitos de nós,
até para os jovens, especialmente os jovens
porque eles perderam o início e têm
o resto do caminho para ir;
mas não é estranho, tudo o que consigo pensar agora são
pepinos, laranjas, terrenos baldios, a
velha cadeia de Lincoln Heights e
os amores perdidos que foram tão ásperos
e quase nos levaram ao extremo,
os rostos agora sem traços,
as camas do amor esquecidas.
a mente é gentil: ela guarda as
coisas importantes:
pepinos
laranjas
terrenos baldios
cadeias.
eu matei uma mosca aquele pedacinho de vida morto
como um amor morto.
costumava haver mais de 100 de nós naquela salona
naquela cadeia
eu estive lá dentro muitas
vezes.
você dormia no chão
homens pisavam na tua cara quando iam mijar.
sempre uma falta de cigarros.
nomes eram chamados durante a noite
(dos poucos sortudos que saíam sob fiança)
nunca você.
não pedíamos misericórdia ou milagres
e não pedimos nada
agora;
pagamos nossas dívidas, ria se quiser,
nós fomos pêlos únicos caminhos que haviam para ir.
e quando o amor veio a nós pela segunda vez
e mentiu para nós pela segunda vez
decidimos nunca mais amar novamente
isso era justo
justo com a gente
e justo com o amor mesmo.
não pedimos misericórdia ou
milagres;
somos fortes o suficiente para viver
e para morrer e para
matar moscas,
assistir às lutas de boxe, ir às corridas,
viver de sorte e perícia,
ficar sozinho, ficar sozinho frequentemente,
e se você não conseguir dormir sozinho
tome cuidado com o que disser enquanto dorme
e
não peça misericórdia
milagres;
não se esqueça:
o tempo existe é para ser desperdiçado,
o amor fracassa
e a morte é inútil.
Tradução de Fernando Koproski
sábado, 12 de dezembro de 2009
Ao acender um charuto - Bukowski
O que há em mim é sobretudo cansaço
Fernando Pessoa - Alvaro de Campos
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
sábado, 21 de novembro de 2009
Hai Kai - Paulo Leminski
HAI
Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.
KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
[do livro Distraídos Venceremos]
O Nada
Composição: Fernando Catatau
deixem os ladrões entrarem
eles vão levar tudo que puderem
e você vai ficar cansado
e também muito triste
e vai caminhar por aí
pensando em seus próprios passos
flutuantes
com aquela vontade de sumir
progressivamente
e você se vai...vai
e você se vai...vai
desaparecendo aos poucos
e depois voltando à realidade
e o nada
daí,quando você tiver a certeza de que não possui mais nada
e que até a sua própria dor não lhe pertence mais
talvez
em algum momento
você se livre desses pensamentos
e se sinta
começando
renascendo
solitário
tendo em vista
um novo momento
então...
abram as portas das suas casas
deixem os ladrões entrarem
eles vão levar tudo que puderem...
Certas Coisas - Bukowski
certas coisas que nós suportamos
não nos dizem respeito,
e nós lidamos com elas
devido ao tédio ou ao medo ou ao dinheiro
ou à pouca inteligência;
a nossa vontade e a nossa esperança
cada vez mais pequenas,
tão pequenas que nem as suportamos,
nós agarramo-nos ao Ideal
mas perdemos o Rumo:
muita parra e pouca uva,
e vemos nomes que antes significavam sabedoria,
como sinais em cidades fantasma,
onde só as campas são reais.
versão de manuel a. domingos às 12:53
sábado, 7 de novembro de 2009
Citações William Burroughs
"Como todas as criaturas puras, os gatos são práticos".