sábado, 30 de julho de 2011

Citação Kerouac - Diarios de Jack Kerouac 1947-1954 II

" Tire toda a autoridade oficial de um homem por um instante. São as autoridades oficiais deste mundo as responsáveis por ele ser tão mal utilizado e degradado, tão inabitável. Em meia hora, se você tirar de um homem toda a sua autoridade oficial, eu poderia fazer dele um amigo eterno e charmoso mas devolvam sua autoridade oficial no dia seguinte, e ele pode muito bem me sentenciar á morte. Estamos na Floresta das Ardenas, meus amigos, e aí está o mundo."

Retirado do Livro Diarios de Jack Kerouac (1947-1954) - Editado por Douglas Brinkley

Pra quem ficou se perguntando, o que é essa floresta de Ardenas, copiei da Wikipédia.

No século XX, as Ardenas foram consideradas território pouco propício para manobras militares devido ao seu terreno acidentado e densidade florestal. Contudo, foram o percurso preferido pelos alemães quer na Primeira, quer na Segunda Guerra Mundial, para rapidamente atingir pontos mais fracos da defesa francesa. As Ardenas foram palco de grandes batalhas como:
  • Batalha das Ardenas - Primeira Guerra Mundial, (21-23 de agosto de 1914)
  • Batalha de França - Segunda Guerra Mundial (10 de maio - 22 de junho de 1940)
  • Batalha do Bulge - Segunda Guerra Mundial (16 de dezembro de 1944 - 30 de janeiro de 1945)


    Citação Kerouac - Diarios de Jack Kerouac 1947-1954


    SÁBADO 15 DE MAIO - Fui a uma festa na cidade, vi Beverly de novo – vi Lucien embarcar num avião de manhã - fui a um jogo dos Yankee-Athletics com Tony, cancelado pela chuva - voltei para casa. Este é um rápido resumo do fim de semana, outro dos mais estranhos em minha vida. Sempre parece que quando mais aprendo e nos fins de semana, e ninguém concluiu conscientemente o significado tremendo dos fins de semana americanos, da orgulhosa noite de sábado bem-vestida com seus milhões de premonições de triunfo e alegria, para a sombria noite de domingo com sua solidão doce e amedrontada (vejo ai um foco de minha visão “artística” da vida). Para começar os detalhes desse fins de semana: todo escritor tem seu sonho, claro que todo homem tem seu sonho, e meu sonho, composto de tantas coisas, de júbilo e melancolia profunda e alegria, de doce companheirismo sob a soleira de casa, de humildade e solenidade tristes, de algo como criancinhas, lar, maravilha, afeto, simplicidade, consolo no mundo vasto, de contemplação pesarosa das crônicas das vidas, de pessoas humanas, pessoas que amam e confiam, um milhão de coisas, todas elas sombrias, de alguma forma, pois não reluzem - um sonho, tambem, de uma sociedade sem classes divididas por pompas e vaidades mundanas e invejas - um sonho não da perfeição do mundo, mas de confiança simples, simples desejo de felicidade e gozo, luta simples e sincera, e intenções piedosas - algo doce, sombrio, e quantas palavras terei de juntar para explicar isso! - bem, isto, o meu sonho, foi abalado este fim de semana por Beverly. Aparentemente ela não confia em mim porque “não tenho um emprego” - não consegue entender quem e o que sou - e eu, que acredito tanto na necessidade de uma sociedade sem classes, vejo que estamos divididos por opiniões de classe, ou percepções de classe, ou o que quer que seja. Há muito poucas coisas que eu posso dizer a ela, há muito pouco que ela possa me dizer que vá despertar qualquer coisa em mim. Somos separados por “educação” e “classe”, e essas são, para mim, de alguma forma as enigmáticas raízes de todo o mal. Essas são as coisas, as coisas divisoras do mundo, que causam tanta incompreensão e contracorrentes em meio a um mundo inteiro de pessoas que poderiam se dar bem, como Jesus teria desejado, com doçura, simplicidade, confiança. Em meu sonho de uma casa, júbilo e a vida simples e bom propósito, eu achava Beverly apropriada, porque ela tinha todas as qualidades. Mas se eu posso tê-la rejeitado por um detalhe o fato de que ela não conseguia se comunicar com minhas preocupações mais complexas (como esta vendo, e elas nem são tão complexas) - em vez disso, acreditando meu sonho, eu a aceitei e a queria por essas qualidades terrenas que com minhas fraquezas de mais classe. minha literatura, meu conhecimento pesaroso, minha letargia de contemplação e simpatia - mas se eu podia rejeitá-la, em vez disso ela me recusou, porque aparentemente eu não era de sua terra. E isso e algo em que me recuso acreditar, com um horror moral - esta é a desnecessária loucura divisora das pessoas outra vez. - É a loucura dela, não a minha, porque ela não consegue perceber que eu sou tanto da terra dela quanto de meu mundo - bom Deus, todo mundo é. Por que todas essas distinções? Por que o medo e a desconfiança? Se, por outro lado, ela me rejeitou acreditando que eu não “daria bom marido” devido à penúria congênita - como ficava evidente em meus encontros com ela - se ela é uma interesseira, claro que isso não importa. Mas não tenho qualquer prova de que ela seja interesseira, apesar de eu querer confirmar isso de algum jeito. Meu sonho está abalado - eu mesmo estou abalado -gostaria que todos na terra parassem de olhar de soslaio uns para os outros por causa de alguma diferença infinitesimal sobre o grande céu universal É tão absurdo quanto a ereção de uma pulga, considerando-se tudo ao redor. Sou tão culpado quanto ela por fazer distinções e tomar decisões? Eu a escolhi, afinal de contas, “entre milhões” - essa era a minha idéia” Eu fiz a primeira distinção. Mas agora perdi o rastro de meu pensamento, se há algum. É suficiente que eu tenha um sonho, um ideal de vida mais importante para mim que a casualidade e a “realidade" fria, e que isso foi abalado porque um abismo escancarou-se bem no meio dela. Sonhei com uma vida simples, escolhi uma garota simples, e ela dá as costas e se pergunta se não sou um vagabundo errante porque não “tenho um emprego”. eu não trabalho (!) e por aí vai, porque eu falo de uma fazenda ou de um rancho. Em outras palavras, talvez, eu contei a ela sobre mim e ela ficou estupefata pelas contradições que para ela nunca vão conseguir funcionar. Ah, eu não sei. Eis o dilema: - eu devo, em nome de Deus. casar-me com uma garota intelectual para ser compreendido e amado? Então esse é um enigma novo - para ser esclarecido mais tarde.

    Retirado do livro Diarios de Jack Kerouac (1947-1954) - Editado por Douglas Brinkley

    sábado, 23 de julho de 2011

    a última - W. S. Merwin



    Eles decidiram estar por toda parte. Por que não?
    Todos os lugares eram deles porque sim.
    Eles tinham mãos de lâminas e tinham o desprezo dos pássaros.
    No caminho que fica entre as pedras, decidiram.
    E então começaram a derrubar.

    E eles cortaram tudo. Por que não?
    Todas as coisas eram deles porque era assim que eles pensavam.
    Ela caiu em suas próprias sombras e eles a levaram.
    Alguma coisa para ter, alguma coisa para guardar.

    Cortando tudo eles chegaram até a água.
    E quando o dia acabou ainda restava uma de pé.
    Eles foram embora e deixaram para derrubá-la no dia seguinte.
    A noite aninhou-se nos seus últimos galhos.
    A sombra da noite juntou-se à sombra sobre a água.
    A noite e a sombra formaram uma só cabeça.
    E a que restava decidiu que ficaria.

    Pela manhã eles cortaram a que restava.
    Como as outras a última caiu em sua própria sombra.
    Em sua própria sombra sobre a água.
    Eles a carregaram a sombra permaneceu na água.

    Eles encolheram os ombros e começaram a tentar demover a sombra.
    Cortaram até o nível do chão a sombra continuou intacta.
    Cobriram a sombra com tábuas ela apareceu por cima.
    Iluminaram a sombra ela ficou mais escura mais brilhante.
    Explodiram a água a sombra balançou.
    Decidiram fazer uma enorme fogueira com raízes.
    Uma fumaça negra subiu entre a sombra e o sol.
    A nova sombra se espalhou sem alterar a antiga.
    Eles encolheram os ombros foram buscar pedras.

    Voltaram e viram que a sombra estava crescendo.
    Atiraram pedras sobre ela e ela continuou crescendo.
    Enquanto olhavam para os lados, ela continuava crescendo.
    Decidiram transformar tudo aquilo em pedra.
    Trouxeram mais pedras e as jogaram sobre a sombra.
    A sombra se sobrepunha sem fim e continuava crescendo.
    Isto foi um dia.

    Na manhã seguinte aconteceu o mesmo ela continuava crescendo.
    Eles tudo fizeram tudo permaneceu igual.
    Resolveram retirar a água debaixo da sombra.
    Retiraram e a água baixou de nível.
    A sombra continuou no mesmo lugar de antes.
    Continuou crescendo e se espalhou pela terra.
    Eles começaram a raspar a sombra com máquinas.
    As máquinas tocavam nela ela penetrava nas máquinas.
    Eles começaram a tratar a sombra a porradas.
    Quando os paus atingiram a sombra ela penetrava neles.
    Eles começaram a bater na sombra com os punhos.
    Quando os punhos batiam na sombra ela penetrava neles.
    Isso foi no outro dia.

    No dia seguinte eles começaram tudo de novo ela continuou crescendo.
    Acenderam luzes contra a sombra.
    Por onde a sombra passava as luzes se apagavam.
    Começaram a pisar na margem da sombra e ela agarrou seus pés.
    E quando a sombra agarrou seus pés eles caíram.
    E quando ela alcançou seus olhos eles ficaram cegos.
    A sombra cresceu sobre os que caíram e eles sumiram.
    Os que podiam enxergar ficaram parados.
    Os que ficaram cegos e entraram nela sumiram
    suas sombras foram engolidas.
    Depois seus corpos foram engolidos.
    Então os outros fugiram.
    Os sobreviventes saíram pelo mundo e viveriam se a sombra lhes permitisse.
    Foram o mais longe possível.
    Os que tinham mais sorte levando suas sombras.

    Livro: Quingumbo - A nova poesia norte americana
    |Tradução: Nei Leandro de Castro

    Trecho de Tristessa - Jack Kerouac

    "... eu gostaria de dizer a ela em espanhol a benção inestimável e ilimitavel que receberá de qualquer forma no Nirvana. Mas eu a amo, me apaixono por ela. Ela acaricia meu braço com o dedo. Eu adoro. Tento me lembrar de meu lugar e minha posição na eternidade. Renunciei a luxúria com as mulheres - renunciei a luxúria pela luxúria - renunciei à sexualidade e ao impulso inibidor - quero entrar na torrente sagrada de luz e ficar seguro em meu caminho para outra margem, mas deixaria, de boa vontade, um beijo para Tristessa por escutar os apelos de meu coração. Ela sabe que eu a amo e admiro com todo meu coração e eu estou me segurando. "Você tem a sua vida" diz ela para Old Bull (e sobre ele em um minuto) "e eu tenho que cuidar da minha, e Jack tem a vida dele", apontando para mim, ela me devolve minha vida e não a exige para si mesma como fazem tantas mulheres que você ama. Eu a amo mas quero partir. Ela diz: "Eu sei, um homem y uma mulher estão condenados - ""quando querem estar condenados" -. Ela balança a cabeça, confirma para si mesma alguma sombria crença asteca instintiva, sábia"
    "... Ela compreende o carma, e diz " O que faço é ceifar", diz em espanhol - "Homens e mulheres cometem errores - erros, falhas, pecados, faltas," seres humanos semeiam com problemas sua própria terra,  tropeçam nas pedras de sua imaginação falsa e errada, e a vida é dura. Ela sabe, eu sei, você sabe. - "Mas eu quero tomar um dose - morfina - e não ficar mais com essa vontade." Ela encurva os ombros com rosto de camponesa, compreendendo a si mesma de uma maneira que eu não consigo e quando olho para ela sob o tremeluzir da vela sobre as maçãs protuberantes de seu rosto ela parece tão bonita quanto uma Ava Gardner Negra, uma Ava marrom de rosto comprido e ossos compridos e olhos semicerrados de cílios compridos - Só que Tristessa não tem essa expressão de um sorriso sexual, tem a expressão de menosprezo indígena de rosto triste e abatido para o que você acha de sua beleza mais que perfeita. Não que seja uma beleza perfeita com a de Ava, ela tem falhas, erros, mas todos os homens e mulheres os têm e por isso todas as mulheres perdoam os homens e os homens perdoam as mulheres e eles seguem seus caminhos sagrados para morte..."

    domingo, 17 de julho de 2011

    Prece a grande familia - Gary Snyder

    Gratidão à mãe Terra, que navega noite e dia –
    e a seu solo: rico, raro e doce
    em nossas mentes assim seja.

    Gratidão às Plantas, à folha voltada pro sol,
    que se transforma com a luz
    e pelos radiculares vistoso; em pé, firme
    resistindo ao vento
    e à chuva; sua dança está no grão espiral que brota
    em nossas mentes assim seja.

    Gratidão ao Ar, que sustenta o Andorinhão planador e
    a silenciosa Coruja ao amanhecer. Sopro da nossa canção
    puro espírito da brisa
    em nossas mentes assim seja.

    Gratidão aos Seres Selvagens, nossos irmãos e irmãs,
    que ensinam
    segredos, liberdades e caminhos; que

    compartilham conosco seu
    leite; íntegros, corajosos e atentos
    em nossas mentes assim seja.

    Gratidão à água: nuvens, lagos, rios, geleiras;
    contendo ou liberando; fluindo totalmente
    nossos corpos mares salgados
    em nossas mentes assim seja.

    Gratidão ao Sol: pulsante e ofuscante luz que atravessa
    troncos de árvores e atravessa névoas e aquece
    cavernas onde

    ursos e cobras dormem – ele que nos desperta –
    em nossas mentes assim seja.

    Gratidão ao Grande Céu
    que comporta bilhões de estrelas - e vai ainda além –
    além de todos os poderes pensamentos
    e ainda está dentro de nós –
    Avô Espaço.
    A Mente é sua Esposa.

    assim seja.

    após um prece Mohawk

    Em troca de Nada - Gary Snyder

    A terra é uma flor
    Um flox nos íngremes
    declives de luz
    pendendo sobre os vastos
    sólidos espaços
    pequenos cristais apodrecidos;
    sais.
    A terra é uma flor
    próxima à escarpa onde um corvo
    passa batendo as asas uma vez
    um relance, uma cor
    esquecida como tudo
    desaparece.
    Uma flor
    em troca de nada;
    uma oferta;
    sem comprador;
    Neve pingando, feldspato, imundície.

    Religiões - Gary Snyder

    É bom lembrar que todas as religiões contêm noventa por cento de fraude e são responsáveis por numerosos males sociais. Mesmo assim, dentro da geração beat verifica-se a existência de três tendências:
    1. Busca da visão e da iluminação. Esse resultado é obtido geralmente pelo uso sistemático de drogas. A marijuana é um recurso de consumo diário e o peiote é o verdadeiro estimulante da percepção. Tanto um como o outro são complementados às vezes por práticas iogues, álcool ou similares. Embora uma boa parte de auto-consciência possa ser obtida pelo uso inteligente das drogas, o hábito de "drogar-se" não conduz a nada porque falta exatamente inteligência, vontade e compreensão. Uma sensação puramente pessoal, obtida às custas de um tóxico, não beneficia ninguém.
    2. Amor, respeito à vida, abandono, Whitman, pacifismo, anarquismo, etc. Todas essas tendências são provenientes de inúmeras tradições, entre as quais a religião Quakers, o Budismo Shinshu, o Sufismo, etc. Todas são frutos de um coração generoso e apaixonado. Em suas manifestações mais dignas, essas tendências levaram algumas pessoas a condenarem ativamente as guerras, fundar comunidades e amarem-se umas às outras. Em parte, elas também são responsáveis pela mística dos "anjos", a glorificação das viagens a pé e das caronas, bem como por uma forma de entusiasmo inconsciente. Se respeitam a vida, não respeitam a sabedoria da impassibilidade e a morte. E essa é uma de suas falhas.
    3. Disciplina, estética e tradição. Essas tendências são bem anteriores ao surgimento oficial da geração beat. Diferenciam-se da doutrina "Tudo é um" na medida em que seus praticantes estabeleceram uma religião tradicional, tentaram incorporar o sentimento de sua arte e de sua história, e praticam qualquer ascese que for necessária. Uma pessoa pode tornar-se um dançarino aimu ou um xamã yurok, ou até mesmo um monge trapista, se ela realmente o deseja. O que falta nesse tópico, é o que os dois primeiros possuem, ou seja, uma existência perfeitamente adaptada à realidade do mundo e percepções realmente verdadeiras do inconsciente.
    A conclusão prosaica é a seguinte: se uma pessoa não for capaz de compreender todos esses aspectos - contemplação (que não seja pelo uso de drogas), moralidade (que para mim significa protesto social) e sabedoria - ela não estará à altura de levar uma autêntica vida beat. Mesmo assim, poderá ir bastante longe nessa direção, o que é preferível que ficar rodando pelas salas de aula ou escrever tratados sobre o budismo e a felicidade das massas, como os caretas fazem com tanto sucesso.

    PROTOPIA