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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Assim é a América - Gregory Corso

                              Assim é a América e eu me divirto
           música a valer e os lunáticos
           com as bocas fechadas sem cantar
me apaixono por uma mulher
           e detesto todas as outras
para um jogo feminino de cinquenta
         para cada dez
            nos outros cinquenta
está o melhor

                              A América é assim e há assim e há muito mais
           diversão
           e lunáticos
um bando dos que nãos sabem cantar
e um bando dos que cantam
           mas ninguém se interessa
           como eu

                Que cantei na Califórnia
toda minha cultura ocidental para um mexicano escutar
           mas ele apagado não me ouvia
morreu com um sorriso nos lábios
           o trapaceiro com três dentes de ouro
           um bocado de chá
           a mão cheia de payote
           e uma esposa de quatorze anos

O Crime - Gregory Corso


No animal ainda quente seu crime
foi gracejo da secreta ação amarga humana
suficiente para o riso da jovem
com o sangue se esvaindo surdamente

juntos comeram a rosa
e juntos enxugaram as línguas
ante as brasas e os recortes de pele

eles se amaram tanto
até os olhos caírem por dentro
e as faces se despregarem


domingo, 4 de setembro de 2011

O Último alento de Arnold - Gregory Corso


Arnold, acalentado por Deus, 
escondido sob a varanda 
relembrando o tempo em que fugiu, aprisionado em 
         Vermont, 
abrindo um caminho na neve. Arnold era de outro lugar, 
onde não era tão frio; lá ele usava sapatos camurça 
e jogava tênis de mesa.
Arnold sabia o Corão.
E ele saia cantar:
          O jovem Julien Sorel
          Recitava bem o latim
          E era inteligente assim
            Como ele era um jasmim
          Até que sua cabeça caiu.

Na atmosfera vazia
Arnold tinha um trinca de pombos, um pacote milho.
Pensava em Eleanor, em suas mãos;
Observava ela sentada quieta na escola
Ele tinha Carmine para atraí-la para uma atmosfera mais cálida;
Queria beijá-la, viver com ela para sempre;
Abrir-lhe a cabeça com propostas mirabolantes.

Quem é Arnold? Bem,
Quando o encontrei a primeira vez usava um gorro preto 
coberto de broches antigos. Estava com 13 anos.
E com medo. Mas sorria. Ele estava sempre 
querendo te acompanhar no caminho de casa, falar com tua mãe, 
conversar com ela sobre o Parque da rua Hester 
sobre os vagabundos gélidos de lá; 
sobre as velhas judias gélidas sentadas, 
com as mãos dobradas, tristes, virando o rosto 
para longe do antigo lar dos judeus.
Arnold cresceu conhecendo bem os agentes de turfe 
e os depenadores de frangos

E Arnold sabia cantar:
          Agora morreu, aos meus 15 anos
          Delano Roosevelt, com seu rosto sorridente
          Tornou mais diabólico o Imperialista com dentadura de dólar,
          O Ariano de bigodes,
          O César queixudo –
          Agora morreu, e eu chorei...
          Porque esse homem uma vez eu odiei 
          sem razão nenhuma 
          só ódio inocente 
          – meu gorro coberto com broches antigos.

Arnold levou um chute no saco 
de uma garota italiana que enlouqueceu 
por causa de uma grande greve de mineiros 
que forçou a Aliança Educacional a fechar as portas.
Arnold, fraco e caído, roubou uns centavos de uma biblioteca, 
mas aproveitou para ler Paderewski.
Ele costumava andar pela Rua Sul 
a refletir sobre os diversos tipos de cola.
Era em cola de avião que ele pensava 
quando caiu e morreu sob a Ponte do Brooklyn.    

Poemas do livro:  Gasolyna
Tradução: Ciro Barroso

sábado, 3 de setembro de 2011

O Lamento de Zizi - Gregory Corso


Me apaixonei pela risonha morbidez
como seria bom para mim se pudesse possuí-la —
Eu já me vesti com as esplêndidas batas do Sudão,
carreguei as magnificentes halivas de Boudodin Bros...
beijei as Fatimas cantantes do cafetão de Aden,
escrevi salmos gloriosos no café do Hawhaliba,
mas nunca possuí a morbidez risonha,
então, que valor tenho eu?
O gordo mercador me oferece ópio, kief, haxixe,
ate mesmo Ieite de camelo,
mas tudo é insatisfatório –
Ó amarga noite condenada!! novamente você! deverei ainda
arrancar meus dentes irreais
desnudar minha pessoa irrisível
dar ao sono essa cabeça melancólica?
Nada sou sem a risonha morbidez.
Meu pai já a teve, meu avô a possuía;
Sem duvida meu Tio Fez a terá, mas eu, para mim
a quem eIa faria maior bem,
será que um dia a terei?

Alô - Gregory Corso

É desastroso ser um cervo ferido.
Eu estou muito ferido, os lobos rondam
e tenhos meus fracassos também.
Minha carne ficou presa no Gancho Invevitável!
Quando criança vi todas as coisas nas quais não queria me transformar.
Serei a pessoa que não desejava ser?
Aquela pessoa que-fala-sozinha?
Aquele de quem os vizinhos caçoam?
Serei eu aquele que, nos degraus do museu, dorme de lado?
Estarei usando a roupa do cara que falhou?
Sou um sujeito lunático?
Na grande serenata das coisas,
                serei a passagem mais cancelada?

sábado, 11 de junho de 2011

Casamento - Gregory Corso


Tradução de Márcio X. Simôes
 
Devo me casar? Devo Ser bom?
Aturdir a garota da porta ao lado com meu terno de veludo e fausto capuz?
Não leva-la aos filmes mas aos cemitérios
Contar-lhe tudo sobre lobisomem banheiras e clarinetes bifurcados
depois deseja-la e beija-la e todo o preliminário
ela indo tão longe e eu entendendo porquê
sem me zangar ao dizer Você deve sentir! É lindo sentir!
Ao invés de tê-la em meus braços devo recostar em uma velha lápide torta
e corteja-la as constelações no céu a noite completa-
Quando ela me apresentar aos seus pais
sufocado por uma gravata, o cabelo afinal penteado, coluna ereta
devo sentar com os joelhos juntos no seu muito sério sofá
e não perguntar Onde é o banheiro?
Como me sentir outro se não eu,
freqüentemente pensando no seriado do Flash Gordon -
Ó quão terrível deve ser para um jovem
sentado diante de uma família pensando
Nós nunca o vimos antes! Ele quer a nossa Mary Lou!
Depois do chá e dos biscoitos caseiros eles perguntam O que você faz pra viver?
Devo conta-lo? Atrevo agrada-los?
Dirão depois Tudo bem case-se, estamos perdendo uma filha
mas ganhamos um filho -
Pergunto então Onde é o Banheiro?
Ó Deus e o casamento! Toda a sua família e amigos
e só um punhado dos meus todos vagabundos e barbados
apenas esperando a comida e a bebida-

sábado, 23 de abril de 2011

Destino - Gregory Corso


Eles entregam os decretos de Deus
sem demora
E são isentos de apreensão
e detenção
E com seu Dons Divinos
Petaso, Caduceo e Talaria
rompem como raios de relâmpago
desimpedidos entre os tribunais
do espaço e do tempo

O Espírito-Mensageiro
no corpo humano
é assinalado firme
confiante, fecundo,
perfeita existência poética
ao longo de sua duração na vida

Não bate
ou toca a campanhia
ou telefona
Quando o Espírito-Mensageiro
vem até sua porta
mesmo fechada
ele vai entrar como uma parteira elétrica
e entregar a mensagem

Não há relatos
através das eras
de que um Espírito-Mensageiro
tenha alguma vez tropeçado na escuridão
Achei aqui: Furias de Orfeu

A BAGUNÇA TODA... QUEM SABE - Gregory Corso

A BAGUNÇA TODA... QUEM SABE

Subi seis lances de escada
até meu pequeno quarto mobiliado
abri a janela
e comecei a jogar fora
as tais coisas mais importantes na vida

Primeiro, a Verdade, ganindo como um dedo-duro:
“Não! Direi coisas terríveis de você!”
“Ah, é? Não tenho nada a esconder... FORA!”
Depois, Deus, assombrado, corado e choroso de espanto:
“Não é culpa minha! Não sou a causa de tudo isso!” “FORA!”
Depois o Amor, aliciando subornos: “Você não conhecerá a impotência!
As garotas da capa da Vogue, todas suas!”
Apertei sua bunda gorda e gritei:
“Seu destino é um desvalido!”
Peguei a Fé, a Esperança e a Caridade
as três juntas abraçadas:
“Você não vai sobreviver sem nós!”
“Estou pirando com vocês! Tchau!”

Depois a Beleza... Ah, a Beleza –
Tão logo a levei até a janela
disse: “Você eu amei mais na vida
... mas é uma assassina; a Beleza mata!”
Sem querer realmente atirá-la
desci correndo as escadas
chegando a tempo de apanhá-la
“Você me salvou!” sussurrou
Coloquei-a no chão e disse: “Anda.”

Subi de volta as escadas
procurei o dinheiro
não havia dinheiro pra jogar fora.
Só restava a Morte no quarto
escondida atrás da pia da cozinha:
“Não sou real!” gritou
“Não passo de um rumor espalhado pela vida...”
Atirei-a fora com a pia e tudo, sorrindo
e então notei que o Humor
era tudo que havia restado –
Tudo que pude fazer com o Humor foi dizer:
“A janela fora com a janela!”


traduções: Márcio Simões
 Achei aqui: Furias de Orfeu

Ontem a noite dirigi um carro - Gregory Corso

ONTEM À NOITE DIRIGI UM CARRO


Na noite andei de carro
sem ter meu carro próprio
sem jeito pra andar
corri e joguei longe
tribos que amo
... foi 120 em meio a um povo.


Parando em Hedgeville,
no assento de trás dormi
... no êxtase de uma vida nova.


Gregory Corso

Traduzido by Adriandos Delima

Achei aqui: Rimaevida

domingo, 11 de outubro de 2009

Poemas de Gregory Corso

Alô

Gregory Corso

É desastroso ser um cervo ferido.
Eu estou muito ferido, os lobos rondam
e tenho meus fracassos também.
Minha carne ficou presa no Gancho Inevitável!
Quando criança vi todas as coisas nas quais não queria me
transformar.
Serei a pessoa que não desejava ser?
Aquela pessoa que-fala-sozinha?
Aquele de quem os vizinhos caçoam?
Serei eu aquele que, nos degraus do museu, dorme de lado?
Estarei usando aroupa do cara que falhou?
Sou um sujeito lunático?
Na grande serenata das coisas,
serei a passagem mais cancelada?
NAS MÃOS ESTÁ MINHA CIDADE

Nas mãos está minha cidade, minha lira
E em minhas mãos está a pira
E minha mãe ouve Corelli
enquanto minhas mãos estão em chamas

O NOVA-IORQUINO

Ele está em Cambridge
E agora bate em minha porta
Ele é o cara de Nova York;
tem olhos enormes de neon
seu olhar despeja
jazz pelo meu chão
Mas ele estava mesmo lá?
Podia ser um rádio,
ou um órgão de fundo
ali alucinado.
Podia ser eu mesmo
me visitando em pleno jazz,
com receio de bater.

CAVALO COM LEITE

Num quarto a colher sobre o fogo
A cozinhar o desejo secreto.
Tudo cozido, ele apanhou um cinto
e correu antes do cavalo derreter.
O cinto foi preso em volta do braço;
a agulha bem limpa para não haver danos
e apertando, apertando, uma veia surgiu.
Com uma puxada o braço começou a doer.
Com mão firme ele esperou inchar -
esperou o sonho que a si orfertava.
E então a agulha avançou plenamente
Mas o cavalo tinha leite, e não deu barato.
Ele foi ao chão sem fazer ruído,
e girou os olhos como um carrossel.
Então se esfregou e sacudiu e puxou os cabelos,
vomitou ar, nada mais do que ar.
No fundo da noite ele rolava e rugia.
Ó alma, você nunca esteve tão chapada neste mundo.
fonte: Gasolina & Lady Vestal, L&PM, 1985
Achei Aqui: Reduto Literario


quinta-feira, 15 de maio de 2008

Gregory Corso

GREGORY CORSO(1930)
*Gregory Corso nasceu em Greenwich Village, nos Estados Unidos da América, em 1930.Membro da geração «beat», até ao seu encontro com Kerouac e Ginsberg viveu com vá-rias famílias, desempenhando o seu papel de filho adoptivo, entre passagens por orfana-tos e reformatórios. Revelou-se como poeta com o livro "The Vestal Lady on Brattle andOther Poems» (1955), seguindo-se «Gasoline» (1958) e «Bomb» (1958) ou o famoso «LongLive Man» (1962). É um poeta carismático, tornando sérios acontecimentos artísticos os seus recitais, em bares ou universidades do seu país natal.

CASA NATAL REVISITADA
Fico na luz escura da rua escura
e olhos para cima para a minha janela, nasci ali.
As luzes estão acesas; outra gente anda por lá.
Estou de gabardina; cigarro na boca,
cabelo para os olhos, mão na garganta.
Atravesso a rua e entro no prédio.
Os caixotes do lixo continuam a cheirar mal.
Subo ao primeiro andar; Orelhas Sujas
aponta-me uma faca...
eu tactei-o cheio de relógios perdidos