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sábado, 24 de outubro de 2009

Geração Beat



Geração Beat




Estar em movimento. Eis o principal objetivo da Geração Beat, grupo de jovens intelectuais americanos que, em meados dos anos 50, cansados da monotonia da vida ordenada e da idolatria à vida suburbana na América do pós-guerra, resolveram, regados a jazz, drogas, sexo livre e pé-na-estrada, fazer sua própria revolução cultural através da literatura.
O termo Beat, usado para classificar a nova geração, é de origem controversa. Jack Kerouac – principal escritor do movimento – queria que o termo fosse uma abreviação de beatitude (mesmo significado em português), enquanto outros, principalmente os críticos e estudiosos, atribuíram tal denominação à influência direta do jazz, principal fonte de gírias e novos termos da contracultura da época. Do soma do radical beat com o sufixo do satélite russo Sputnik, que havia sido mandado ao espaço em 1957, surge a palavra beatnik, usada para designar dali em diante todos os seguidores do movimento. 1957 foi também o ano da publicação de On the Road.
On the Road, de Kerouac, foi o marco milhar deste movimento que, como nenhum outro na história, recebeu imediata e completa cobertura dos meios de comunicação de massa, elevando à celebridade escritores até então obscuros, oriundos dos dormitórios das faculdades de Nova Iorque, São Francisco e Califórnia, jovens que lutavam para publicar seus primeiros trabalhos. Esta amplificação imediata e de costa-a-costa exauriu completamente o conteúdo e a voz do movimento por um processo que se tornaria muito comum nas décadas seguintes do século XX, a saturação da mídia (basta lembrar da declaração de Andy Warhol sobre os 15 minutos de fama), restando nos dias de hoje do grande ‘boom” de três anos e dezenas de livros, poucas obras de qualidade artística inquestionável. Apesar desta saturação, a mensagem dos beatniks – a revolução na linguagem e nos costumes – só repercutiria decisivamente sobre o comportamento dos jovens americanos uma década mais tarde com o aparecimento das primeiras comunidades hippies no final dos anos 60.

A geração Beat foi composta basicamente por homens, que podiam ou não manter relações sexuais entre si, fato, porém, de secundária importância, uma vez que o principal objetivo desses escritores era estar em conjunto, desfrutar de parceria nas viagens, tanto físicas quanto psicotrópicas. Pode-se dizer que esse prazer de estar entre amigos, essa espécie de prolongamento do sentimento colegial de fazer parte de uma turma, de estar para sempre entre grandes camaradas foi a tônica do discurso literário, o leitmotiv de toda a Geração. Atente para o terrível sentimento de perda desta comunidade nas palavras do poeta Allen Ginsberg na famosa introdução do poema O uivo:

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, (...)Esta idéia de desmantelamento inevitável, primeiro dos indivíduos e depois das relações interpessoais, é muito bem expressa nas palavras do crítico americanoEric Homberger:


    “A literatura dos Beats é sobre o laço de amizade entre homens, sobre a afetuosidade entre eles, sobre a tristeza da descoberta de que o amor e a paixão fenecem. Todo o resto – o zelo pela religião oriental, o flerte com o Existencialismo, a fascinação pelos sonhos, o radicalismo político, a paixão pelas drogas, a liberdade sexual – era meramente decoração de uma complexa rede de relacionamentos pessoais”. Os principais expoentes da Geração Beat e suas obras

    Jack Kerouac - Pé na estrada (On the Road, 1957);

    William Burroughs - Junkie (1953) e O Almoço nu (The Naked Lunch, 1959);

    Allen Ginsberg - O uivo (Howl, 1956) e Kaddish (1960);

    Gregory Corso - “Marriege” (1960);

    Gary Snyder - Riprap (1959)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Uivo

Uivo

Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa,
“hipsters” com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato
celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando
sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta-
mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das
cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram
anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,
que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes
alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake
entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi-
carem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca-
da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
de papel, escutando o Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben-
tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus tor-
sos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e cara-
lhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão
na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Pa-
terson, iluminando completamente o mundo imóvel do
Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal
com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos te-
lhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de
neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vi-
brações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de
inverno de Brooklin, declamações entre latas de lixo e a
suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável
percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até
que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta,
trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do
cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zôo-
lógico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s,
voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no
desolado Fugazzi’s escutando o matraquear da catástrofe
na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao
bar ao hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklin,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gra-
dis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas
do Empire State da lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurando fatos e lembran-
ças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os
olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinago-
ga jogada na rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum dei-
xando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro
Cívico de Atlantic City,
sofrendo amores orientais , pulverizações tangerianas nos ossos
enxaquecas da China por causa da falta da droga no
quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da estação fér-
roviária perguntando-se onde ir e foram, sem deixar cora-
ções partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga,
vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve
até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e
bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus
pés em Kansas,
que passaram solitários paelas ruas de Idaho procurando anjos
índios e visionários,
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu
em êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impul-
so da chuva de inverno na luz da rua da cidade pequena
à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz
ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para
conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e
assim embarcaram num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando
além da sombra das suas calças rancheiras e a lava e a
cinza da poesia espalhadas na lareira de chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e
bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas
peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra
o nevoeiro narcótico de tabaco do capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Suare,
chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos
os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam
pela Wall Street e também gemia a balsa da Staten Is-
land,
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e
trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos
carros de presos por não terem cometido outro crime a não
ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telha-
do sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e
urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por estes serafins humanos, os
marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na
grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livre-
mente seu sêmem para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acaba-
ram choramingando atrás de um tabique de banho turco
onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as tres megeras do destino,
a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja,
uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a paerede com uma visão da buceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
que adoçaram trepadas de um milhão de garotas trêmulas
ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguin-
te mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados
à noite, N.C. herói secreto destes poemas , garanhão
e Adonis de Denver - prazer ao lembrar de suas incontáveis
trepadas com garotas em terrenos baldios e pátios dos
fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas filei-
ras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas
ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias
solitário á beira da estrada & especialmente secretos solip-
sismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados
em sonho, acordaram num Manhattan súbito e consegui-
ram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de
Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Aveni-
da & cambalearam até as agências de emprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue
pelo cais coberto por montões de neve, esperando que
se abrisse uma porta no East River dando num quarto
cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de aparta-
mentos de Hudson à luz de holofote anti-aéreo da lua &
suas cabeças receberão coroa de louro no esquecimento,(…)
Allen Ginsberg

Quem Foi Jack Kerouac

Jack Kerouac


Nasceu no Massachussets em 1922. Teve dificuldades econômicas durante a infância, entrou para o time de futebol americano para ganhar uma bolsa na Universidade Columbia de Nova York, para onde se mudou com a família.
Antes de terminar os estudos brigou com o treinador e saiu da faculdade, então, decidiu se alistar na marinha. Não se ajustou e parou na marinha mercante, nas viagens a Nova York saía com os amigos da Universidade, entre eles Allen Ginsberg e William Burroughs, além de seu maior companheiro de viagens Neal Cassadi, o Cowboy. Nesta época ele conheceu seus amigos que formariam o pelotão de elite da chamada Geração Beat, para desgosto da mãe.
Em ON THE ROAD Jack narra a viagem que fez ao lado de Neal, pela rota 66, estrada que cruza o EUA de Leste a Oeste, Dean Moryaty, o protagonista foi totalmente baseado em Neal.


Kerouac começou a escrever um romance, falando sobre os tormentos que sofria para equilibrar a vida selvagem da cidade com os seus valores do velho mundo. Foi o seu primeiro romance publicado, porém não chegou a lhe trazer fama. Passaria muito tempo para que ele publicasse novamente. Na tentativa de escrever sobre as surpreendentes viagens que vinha fazendo com o amigo de Columbia, Neal Cassady, Kerouac experimentou formas mais livres e espontâneas de escrever, contando as suas viagens exatamente como elas tinham acontecido, sem parar para pensar ou formular frases. O manuscrito resultante sofreria 7 anos de rejeição até ser publicado. Jack escrevia vários romances, que ia guardando em sua mochila, enquanto vagava de um lado a outro do país. Escreveu Tristessa obra sobre uma viciada em morfina que vive na cidade do mexico... É um romance triste, cheio de ensinamentos budistas, repleto de compaixão pelo sofrimento humano.

No verão de 1953 Jack Kerouac envolveu-se com uma moça negra, experiência que usou para escrever em 1958 "Os subterrâneos". Escrito em três dias e três noites, Os subterrâneos foi gerado a partir do mesmo tipo de rompante inspiracional que produziu o grande clássico de Kerouac, On the road (traduzido no Brasil no verão de 2007 como Pé na estrada, por Eduardo Bueno) Em 1955 Kerouac apaixonou-se por uma prostituta indígena chamada Esperanza.
Foi publicado pela primeira vez em 1960 e baseado em fatos biográficos.
Sobre o sucesso de On The Road. Joyce Johnson namorada de Jack na época disse “Ele estava agitado e com medo. Ele também sentia que teria de viver para sua imagem pública, pois todos esperariam que ele fosse como Dean Moriarty ou Neal Cassady, mas ele era só Jack Kerouac. Era bastante tímido, preferia ficar num canto olhando, refletindo.”
Nesta mesma época, Jack resolveu se isolar do convívio humano. Subiu até o alto de uma colina e passou longos dias sozinho confinado em uma cabana sem eletricidade e sem vidros nas janelas. Tomava quase uma garrafa de bebida por dia e sofreu com alucinações e paranóias. A experiência foi registrada no livro “Big Sur”, de 1962.
O problema do alcoolismo piorou com o tempo. Derrotado e solitário, vai morar com a sua mãe em Long Island. Seus últimos trabalhos exibiam uma alma desconectada de um ser humano perdido em ilusões. Apesar do estereótipo de beatnik, Kerouac era um conservador, especialmente sob a influência de sua mãe católica. O vigor deu lugar ao cansaço, e o escritor resignou-se a uma vida ordinária.
Frequentemente apaixonado, ele chegou a casar duas vezes ao longo da vida, mas ambos os matrimônios acabaram em poucos meses. Na metade dos anos 60, Jack casa novamente, agora com uma velha conhecida de infância. Ele, a esposa e a mãe mudam para St. Petersburg, na Flórida
Em 21 de outubro de 1969, Jack Kerouac morreu de hemorragia, destruído pela bebida, quando tinha apenas 47 anos, no hospital em St. Petesburg, na Flórida. O amigo e agente literário Allen Ginsberg reverencia seu talento: “Eu não conheço outro escritor que teve influência tão produtiva quanto Kerouac, que abriu o coração como escritor para contar o máximo dos segredos da sua própria mente”.

sábado, 26 de abril de 2008

O que é beat

Para quem não sabe o que é um beatnick. Resolvi postar esta matéria. Ela tem tudo o que precisa pra começar a entender essa geração.



O que é ser Beat?

Publicado no www.whiplash.net - o mais completo site de rock e metal

Beat - Um termo conhecido mas que poucos conseguem definir objetivamente. O que é ser beat? De onde vem o termo beatnik? E qual é afinal a relação entre a geração beat que ouvia bebop jazz e a geração hippie que ouvia rock?


O que é ser Beat?

"A chave de tudo foi o tédio" - Hal Chase

É relativamente seguro afirmar que se não tivesse havido as aventuras andarilhas dos beats, "descobrindo a verdadeira América" como eles gostam de afirmar, e a literatura posterior relatando estas descobertas, dificilmente se poderia conceber o movimento jovem da década de sessenta, nos termos em que se sucederam. Pois foi justamente esta literatura beat, com livros como "On The Road", que incentivaram milhares de jovens a deixarem seus lares de classe média e igualmente irem explorar por si, seu próprio país. Porém diferente dos beats, muitos destes jovens criaram raízes pelo meio do caminho, formando colônias e comunidades alternativas.

A palavra beat em si é sinônimo para batida ou compasso (seja musical ou cardíaco). A palavra também significa ser vencido. O termo "beat" é gíria antiga, utilizada nas ruas entre as pessoas de poucos meios, basicamente reafirmando a idéia de estar cansado e vencido (pela vida). O termo também passou a se emprestar à escória social para designar uma negociação de tráfico que terminou mal. Pagar por heroína e descobrir depois que levaste açúcar ou talco, é ser beat (vencido).

O termo beat se tornou bem popular entre as décadas de trinta, pós- recessão e quarenta, pós- Segunda Guerra Mundial. Para aqueles que viveram estes tempos na ponta mais baixa da escada social, ser beat é roubar ou ser roubado, é estar no mais baixo da baixaria. É estar sem dinheiro, sem teto, ou sem a dosagem diária necessária de birita ou entorpecente para se atingir o nirvana particular, evitando assim as cólicas da abstinência que ficam sempre à espreita, aguardando escondido nas partes mais sombrias do seu id.

A geração que surgiu entre estes dois períodos foi definida por Jean-Paul Sartre como sendo 'The Lost Generation' - A Geração Perdida. Sua alcunha procurava passar o sentimento de angústia, abandono e desespero daquele período. Lembrando o termo Geração Perdida, reza a lenda que sentados em uma cafeteria em Times Square, em meio a um novembro gélido de 1948, Jack Kerouac e John Clellon Holmes procuravam uma definição para a falta de perspectiva que viam e sentiam ao seu redor. Foi quando Kerouac casualmente filosofou, "somos mesmo uma beat generation". Holmes pulou da cadeira como quem acaba de testemunhar uma revelação divina, e gritou: "É isso! Você está certo!"

Quem são os Beats?

"Aparentemente sou algum especie de agente de outro planeta.
Mas não tive minhas ordens decodificadas ainda"
- William Burroughs

Então, está tudo explicado e definido? Bem... talvez não. Cada um dos escritores identificados como sendo beat definem o termo de uma maneira diferente, quase sempre sob um prisma pessoal. De todos, Kerouac foi o primeiro a fazer questão de dispensar definições mais objetivas, se dando ao trabalho de utilizar a palavra "beat" em contextos diferentes, mantendo assim um aspecto indefinível ao termo.

Outros poetas da chamada geração beat, igualmente desconfortáveis com o modismo que o termo passou a atrair, tentam esvaziar o excesso de mítica criada. Gary Snyder, poeta e autor do livro "Myths And Texts", falou certa vez meio brincando, que não existia na verdade nenhuma 'Geração Beat' pois meia dúzia de pessoas não constituem uma geração. Aparentemente este também é o raciocínio de Hettie Cohen Jones, autora do livro "How I Became Hettie Jones". Ela deduziria que o termo Beat Generation era um nome mal empregado pois, naquela altura, toda a Geração Beat cabia em sua sala de estar, e no seu entender, uma geração inteira não poderia caber em apenas uma sala.

Seria Allen Ginsberg quem mais se esforçaria a definir e projetar o termo beat e a consciência literária que ele sugere. Seu esforço promocional era direcionado a conseguir publicações em revistas de renome e status. Não somente para os seus trabalhos, como também para os dois amigos, cujo trabalho Ginsberg mais respeitava e admirava, Jack Kerouac e William Burroughs. Ginsberg porém, nem sempre foi tão obstinado quanto ao seus objetivos. Ele sofria de dúvidas constantes sobre tudo que ele acreditava que a literatura deveria ser. Isto é, até certo dia, quando recitou "Howl".

É possível concluir hoje em retrospecto que existiam dois grupos ou segmentos distintos de beats. O primeiro, surgindo em Nova York durante a década de quarenta e o outro, se encontrando em San Francisco na década de cinqüenta. O grupo inicial, formava-se sem premeditação quando Jack Kerouac, Allen Ginsberg, John Clellon Holmes, William Burroughs, Herbert Huncke, Lucien Carr, Hal Chase e Gregory Corso se conheceram em diferentes ocasiões durante o decurso do ano de 1943. No ano seguinte conheceram Neal Cassady, de passagem em Nova York vindo do oeste. Juntos e individualmente, criaram uma poesia urbana e uma forma ou estilo de escrever específico e à parte de qualquer outro estilo corrente.
Quase uma década depois, Ginsburg e Kerouac vão juntos para o oeste à procura de Neal Cassady. Primeiro Ginsburg e mais tarde Kerouac acabam se fixando em San Francisco, mesmo que por um curto período. Lá acabam atraídos e atraindo poetas igualmente inconformados com a América dos anos cinqüenta. Uma América onde o boom industrial mais servia como um sedativo, fazendo cada nova invenção em eletrodomésticos o principal fator de interesse das massas.

Neste segundo grupo estão poetas, escritores, artistas e intelectuais como Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder, Kenneth Rexroth, Norman Mailer, David Meltzer, George Herms, Wallace Berman, Bruce Conner, Philip Lamantia, Michael e Joanna McClure e vários outros. Abriram a percepção que estava fechada em literatura urbana para algo mais abrangente, atingindo a pintura e escultura, como também uma literatura que possa falar não só da cidade, como do campo e do espírito. Pode-se deduzir que foi em San Francisco que o beat se tornou de fato um movimento.

Qual Evento Deu Vida Ao Poeta Beat?

"Poetas são amaldiçoados mas não são cegos. Eles enxergam com os olhos dos anjos". - William Carlos Williams

Foi em San Francisco, no dia 7 de outubro de 1955, que um grupo de poetas desconhecidos, sem onde ou como apresentar seus trabalhos, resolvem desafiar o que era considerado bom gosto, e fizeram um recital gratuito em uma galeria velha que ficava no bairro negro da cidade. Postaram cartazes pelos arredores, incluindo o bairro latino vizinho, e realizaram o recital. A galeria era chamado de The Six Gallery, que na verdade tratava-se de uma antiga oficina mecânica transformado naquele ano em galeria de arte. Kerouac, recém-chegado em San Francisco e desconhecido ainda da maioria destes poetas desconhecidos, estava presente apenas como espectador. Ele logo tratou de promover uma vaquinha angariando recursos para comprar algumas garrafas de vinho barato por oitenta e cinco centavos o galão. Tornou-se então parte do programa a distribuição gratuita de vinho tanto para os artistas como para o público, que se calcula em torno de cento e cinqüenta pessoas presentes.

Esta era uma época de repressão moralista, de guerra fria e caça aos comunistas. A censura já conseguira taxar como pornografia para então proibir quadros e livros produzidos dentro do período. Então para o público presente, compostos muitos de negros e latinos, imigrantes de vida difícil, o recital com seus poemas questionando tantas certezas do modo de vida americano, soou particularmente reais. Talvez tenha sido o vinho. Ou o cunho subversivo dos pensamentos em relação a corrente em prática. Talvez não. Até porque não é subversivo, é contracultura, em sua forma mais pura e plena, sem a máquina promocional diluindo sua integridade. Talvez o público tenha ouvido com atenção, aplaudindo de pé, manifestando sua concordância com estes pensamentos e idéias oferecendo gritos espontâneos de é isso aí, porque estas mesmas desilusões eram vivenciadas na pele deles também.

Tendo Kenneth Rexroth como mestre de cerimônias, o programa abriu naquela tarde com Philip Lamantia e suas poesias surrealistas. Seguiu então Philip Whalen, que em seus poemas misturava de forma convincente gênero e ironia beat com teologia Zen budista. Michael McClure recitou poemas sobre a natureza, seja retratando o assassinato de baleias ou amores intensos. Gary Snyder explorava histórias com aventuras na natureza, para oferecer profundos conceitos ecológicos.

Por último, recitou Allen Ginsberg, que já aos vinte e nove anos, neste dia lê pela primeira vez em público, aquele que é considerado até hoje, o poema mais famoso e representativo de toda contracultura beat, "Howl for Carl Solomon".

"I saw the best minds of my generation destroyed by madness,
starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn
looking for an angry fix"

"Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura,
esfomeados nus e histéricos,
arrastando-se pelas ruas negras no poente
à procura de um rancor injetável".


Após este evento, deu-se início a uma espécie de renascimento da poesia em San Francisco. Começavam a brotar espaços, com recitais em bares e festas praticamente todas as semanas na cidade. Nas palavras de Gary Snyder: "Tivemos a nítida sensação de termos alcançado uma liberdade de expressão, termos nos libertados da Universidade que tanto sufocava os poetas, indo além da tediosa e inútil discussão sobre Bolchevistas versus o Capitalismo que tanto esvaziava a imaginação de tantos intelectuais do mundo".

O poema já foi interpretado de várias formas, e o concenso sugere que se tratava de impressões sobre a vida e a mente humana. Uma visão das entranhas da era Eisenhower, representando as pessoas sofridas e marginalizadas, tornando-se sua voz. "Howl" - Úivo! - é descrito pelo próprio Ginsberg como sendo montado em três partes como uma pirâmide. Trata-se de um protesto contra a automatização desumana da cultura Americana, como também a afirmação da compaixão humana individual. Credita-se a esta leitura no Six Gallery, para uma audiência apreciativa e entusiástica, o ponto crucial para que Ginsberg percebesse sua vocação, perdendo toda e qualquer dúvida que até então lhe atormentava a mente. Todavia Ginsberg não usava o termo "escritor da beat generation", este somente passaria a ganhar asas no final de 1957, após o lançamento de "On The Road" de Jack Kerouac.

A Popularização do Beat

"Imaginação não é apenas sagrada, é necessária. Não é apenas feroz, é prática. Homens morrem todos os dias pela sua ausência, ela é vasto e elegante". - Diane Di Prima

Entre a leitura de "Howl" na Six Gallery em 1955 e a publicação de "On The Road" em 1957, houve o famoso processo jurídico onde Lawrence Ferlinghetti, ao publicar o livro "Howl and Other Poems" de Allen Ginsberg, passou a ser acusado pelo governo de promover pornografia. É um momento histórico desfavorável à mudanças, onde há no governo dissidências radicais. Liderados pelo Senador Joseph McCarthy, criou-se uma cruzada contra atividades rotuladas anti-americanas. Ao final do julgamento, o poema não só foi inocentado, como definido como sendo "de valioso conteúdo social". Mais importante ainda foi a cobertura diária da imprensa no julgamento, que tornou os termos Beat, Beat Poet e Beat Generation repentinamente conhecidos por todo o país, embora raros seriam aqueles que realmente entendiam do que se tratava.

Esta seria uma das primeiras vitórias da arte sobre a censura dentro deste período histórico americano. Mas se a poesia conseguiu vencer na justiça porque não testar as leis com prosa? Foi o que fez Barney Rossett, o corajoso dono da Grove Press, ao publicar o livro "Lady Chatterley's Lovers" de D. H. Lawrence. Romance impregnado de descrições de conduta sexual, dentro e fora do casamento, o livro foi igualmente taxado como pornográfico pela censura, rendendo outra disputa na justiça avidamente acompanhada pela imprensa. Rossett havia se colocado em uma posição onde poderia ser mandado à prisão e defendeu inteligentemente o livro. A justiça lhe deu ganho de causa e escritores de romance puderam escrever mais aliviadamente. Enquanto estes julgamentos se desenrolavam, "On The Road", escrito em três dias em 1951, contando uma série de aventuras que haviam acontecido cerca de cinco anos antes, finalmente é publicado.

Não demorou muito e como que desafiando a justiça a condená-lo, Rossett publicou outro livro, o romance beat intitulado "Naked Lunch", de Williams Burroughs. Este romance não só falava de sexo fora do casamento, mas sexo dentro do casamento com a adição de múltiplos parceiros. Criava cenas contendo sexo homossexual, além de uma contínua prática no uso indiscriminado de entorpecentes pelo seus personagens. Em cada uma destas batalhas judiciais, que acabavam geralmente ganhas pelas editoras, a cobertura da imprensa servia para promover o livro e o autor. Foi assim que América como um todo descobre o movimento literário chamado Beat.

A literatura beat passa a ser ao mesmo tempo elogiada por alguns críticos, como escrachados pelas associações literárias conservadoras e mote de gozações da imprensa em geral. É neste contexto que nasce o termo Beatnik, que surgiu no San Francisco Chronicle em uma coluna assinada por Herb Caen em abril de 1958. O sufixo nik, inspirado do Sputnik, oferece ao beat, a sugestão de ser subversivo, uma vez que Russos e Americanos simbolizavam a antítese entre Comunismo e Capitalismo. Não demoraria muito e Beat seria compreendido como um estilo de escrever, e Beatnik um estilo de viver. Curioso é como o nome beat ressoa bem no subconsciente da mecânica da sociedade consumista. Menos de dois meses depois de "On The Road" e ainda com todo o ba-fa-fá em relação ao julgamento, o termo passa a ser usado em anúncios da gravadora Atlantic para vender discos de jazz.

Foi justamente com este excesso de publicidade em relação aos beats que se criou em San Francisco o que passou a ser visto como o circuito turístico, concentrando-se primordialmente em North Beach, ponto antigo dos beats originais. Passou a aglomerar no local uma horda de gente jovem, a maioria querendo ser ou passando por beats, todos estereotipados com boinas, barbichas e costeletas largas, óculos escuros e tocando bongô enquanto ouvem jazz. O ponto morreu para os autênticos beats, e muitos voltaram para a estrada, alguns indo parar no México, outros na Europa e ao norte da África.

Se a referência original do termo beat era de conotações negativas, foi Ginsberg quem mais se esforçou em abrir o termo para englobar aspirações mais positivas. Beat é tratado como um algo que sugere uma percepção abrangente, aquele que observa sempre de olhos bem abertos. O termo passa a implicar que quando algo é Beat, automaticamente oferece uma percepção particular e real da natureza das coisas. Ser beat é ser aberto e receptivo para uma visão.

Clellon Holmes seria um dos que mais romantizaria a vida beat, transformando degradação e desencantamento em busca intelectual de novos valores. Ele iria definir beat como sendo a versão Americana para o existencialismo europeu. Ser beat, segundo Holmes, era "despir a mente e a alma. Optar por reduzir-se ao que é mais básico, no lugar de aceitar a visão convencional de uma América complacente, próspera e homogênea". Quando, em fevereiro de 1958, foi solicitado pela revista Esquire a definir o movimento do qual fazia parte, escreveu o hoje famoso artigo "The Philosophy of the Beat Generation". Nele Holmes faz questão de esclarecer que a qualidade principal dos personagens do livro "On The Road" de Jack Kerouac, não era a de serem vagabundos boêmios ou destruidores de ícones, mas sim, o fato de estarem em uma busca, que chega ser de uma natureza espiritual. Holmes conclui no final que o Beat Generation é basicamente uma geração religiosa.

Jack Kerouac, que até então sempre fugiu de definições mais específicas, ao ler o artigo de Holmes irritou-se por encontrar nele seguidas referências às drogas. Isto acabaria motivado-o a publicar a sua versão no curioso artigo intitulado "Aftermath: The Philosophy of the Beat Generation", na mesma revista Esquire no mês seguinte. Nele, Kerouac também romantiza um pouco a alienação social dos Beats originais, tornando-os ainda mais atraentes. Define sua geração como "louca, iluminada, viajando pela América de carona." Kerouac usa expressões como estando por baixo, porém cheias de intensidade. Utiliza adjetivos como sérios, curiosos, beateiros, e concluindo que os Beats são belos de uma forma feia, porém graciosa.

Kerouac faz questão de frisar que o termo nada tem a ver com delinqüência juvenil. Beats são pessoas espiritualizadas que não montavam gangues para agredir pessoas, mas pelo contrário, eram andarilhos solitários, porém solidários.

Qual A Herança Beat no Rock?

"Quão tintilante é aquela primeira picada.
Uma vez sentido, jamais esquecido."
- Herbert Hunke

Seria também Kerouac quem primeiro enxergaria e tentaria traçar uma linha entre os Beats originais da década de quarenta e uma nova geração de jovens que surgia na década de cinqüenta. Geração esta que abraça e absorve o que era Beat. Eles são definidos por Kerouac como sendo uma geração pós-Guerra da Coréia, que por um milagre da metamorfose, emerge "cool" e "beat". De fato, vêm desta nova geração a maior parte das nossas referências para a conduta rebelde que seria definida como sendo roqueira nas décadas seguintes.

A linguagem e roupas dos "hipsters" passam a ser adaptadas pela nova geração via cinema. A herança Beat no rock 'n' roll provém inadvertidamente através de imagens geradas pelos ícones da tela grande, propagando a moda Beat que podem ser reconhecidos através de Montgomery Clift com sua jaqueta e Marlon Brando com a camiseta, ambos absorvidos e refletidos nos jovens com ainda maior intensidade através de James Dean. Por último, temos Elvis Presley com as costeletas largas.

Portanto definir o que é Beat, ou Beatnik continua sendo um exercício improdutivo. A força do termo podendo estar no seu poder de existir sem uma categoria ou definição definitiva. Podemos apenas definir o período, que se caracteriza por ser pós-Segunda Guerra Mundial, tendo sua autoconsciência ocorrida em 1948, mas "descoberta" pela mídia quase uma década depois. Com a descoberta, veio a maior aceitação e por consegüinte, maior facilidade de seus autores de conseguir publicar obras que, em alguns casos, foram escritas com até dez anos de antecedência.

A mais óbvia herança é a importância que a cidade de San Francisco ganhou, ponto dos Beats quando surgiram via imprensa para o povo, e mais tarde, já na década seguinte, ponto dos hippies e do surgimento do chamado Acid rock. A cidade passaria então a ser considerada e hoje ainda lembrada como sendo a capital dos hippies. O fim do período mais popular dos Beats, como sendo a ponta de lança de uma nova conscientização, pode ser detectado em 1966, quando a nova geração de jovens intelectuais, os novos "hipsters", embora prezando os Beats, não se enxergam mais como uma extensão do que foi Beat. A geração de sessenta opta por substituir o jazz por Bob Dylan e rock 'n' roll. Igualmente acabam substituindo a maconha por LSD (como alguns Beats o substituíram por morfina). Finalmente se afastam de nomes como Beat e Beatnik para definir-se. Não são mais hipsters. Agora são hippies.

Roqueiros Se Associam Com Os Beats?

"O peso do mundo é o amor.
Sobre a carga de sua solitude, sobre a carga de sua dissatisfação, o peso.
O peso que carregamos é o amor"
- Allen Ginsberg

Vários dos Beats originais se dedicavam ao budismo, comprovando a tese de que a verdadeira geração Beat era mesmo espiritualizada. Philip Whallen tornou-se um pastor Zen budista e abade do centro Zen em San Francisco, onde atuou por mais de vinte e cinco anos. Gary Snyder, além de budista, se tornou um ambientalista atuante conhecido internacionalmente. Michael McClure gravou alguns poemas com Ray Manzarek ao piano colorindo e acentuando passagens, muito como Jack Kerouac havia feito no início de sessenta com Steve Allen ao piano.

Entre outros Beats que ou gravaram ou apareceram em filmes está Laurence Ferlinghetti, que lê um poema no filme "The Last Waltz" de Martin Scorsese. Ken Kesey teve o seu livro "One Flew Over The Cuckoo's Nest" transformado em um filme digno a vencer um Oscar. Mas ninguém esteve em todas como Allen Ginsberg. Por décadas Ginsberg esteve em vários dos grandes festivais e shows importantes. Andou com Bob Dylan, definindo-o como a maior confirmação de que a sua geração Beat não será como uma rua sem saída. Diz Allen, "Quando eu ouvi 'Masters of War' eu chorei. Foi a noção plena que a tocha foi passada para a próxima geração."

Conheceu, conversou e fez amizades com um cem número de personalidades, principalmente no meio musical. De Charles Mingus à Philip Glass, de Beatles e Stones à Clash e Sonic Youth. Allen Ginsberg gravou e se apresentou com Ornette Coleman, Elvin Jones, Herman Wright, Bob Dylan, Dave Mansfield, Arthur Russell, Philip Glass, Steven Taylor, The Clash, The Lounge Lizards, Arto Lindsay, Bill Frisell, Marc Ribot, Paul McCartney, Lenny Kaye, Patty Smith, Gus Van Sant, Thurston Moore e Lee Ranaldo.

Outro dos mais badalados entre os Beats originais é William Burroughs. Igualmente conheceu bem os Rolling Stones quando estes se hospedaram no mesmo hotel que o seu em Tangier, Marrocos. Fez amizades com Lou Reed e David Bowie na década de setenta. Andou com Patti Smith, tendo até comparecido na festa de seu vigésimo nono aniversário. Seus textos e seus personagens dariam nome a inúmeras bandas das décadas que se seguem. Na década de oitenta grava com Laurie Anderson a canção "Sparkey's Night" e depois ainda faz uma pequena aparição no filme "Home Of The Brave", da musicista minimalista. Aparece também em outra ponta no filme "Drugstore Cowboy" de 1989.

Na década de noventa, teve seu romance "Naked Lunch" finalmente transformado em filme. Infelizmente o escritor já havia falecido. Tributos incluem poemas escritos por respeitados poetas roqueiros de Nova York como Richard Hell e Patti Smith. Talvez William Burroughs seja mesmo o nome que mais se vê ligado ao rock. Basta ler alguns de seus romances que serão encontrados expressões como Heavy Metal, Steely Dan, Soft Machine, Naked Lunch e Soft Boys. Todos nomes de livros ou personagens criadas pela mente de Burroughs e que hoje representam nomes de bandas, algumas mais conhecidas do que outras.

A geração Beat acabou, os grandes e mais lembrados nomes estão todos falecidos. Jack Kerouac, Neal Cassady, LeRoy Jones, John Clellon Holmes, Herbert Hunkle, William Burroughs, e por último, Allen Ginsberg. Embora sem a áurea do termo, você encontra poetas escrevendo dentro de um estilo compatível ao Beat. E de tempos em tempos, encontramos poetas musicalmente inclinados que acabam tendo uma carreira relevante, se não popular. Nomes como Ed Saunders, Tuli Kupferberg e Ken Weaver, três escritores que montaram a banda The Fugs na década de sessenta, Patty Smith e Tom Waits na década de setenta, Nick Drake na década de oitenta e John Hall na década de noventa. Aguardamos para conhecer quem irá surgir durante a primeira década deste novo milênio.

Sugestões para sua Biblioteca Beat:

"Desça a rua, qualquer rua, gravando e fotografando tudo que você ouvir e ver. Vá então para casa e escreva a respeito de suas observações, sentimentos, associações e pensamentos. Depois compare suas anotações com as evidências fornecidas pelas fotos e fitas. Descobrirás que sua mente registrou apenas uma fração de sua vivência. O que você deixou de fora talvez seja o que você precise descobrir. A verdade pode aparecer apenas uma vez. Ela pode não ser repetida". - William Burroughs

The Man With The Golden Arm (1949) - Nelson Algren
The Town And The City (1950) - Jack Kerouac
Royal Holiness Of The Far Out And Prophet Of Hip (1951) - Richard Buckley
Go (1952) - John Clellon Holmes
Junky (1953) - William Burroughs
The Desert Music (1954) - William Carlo Williams
The Scene Before You: A New Approach To American Culture (1955) - Chandler Brossard
The Vestal Lady on Brattle (1955) - Gregory Corso
Howl and Other Poems (1956) - Allen Ginsberg
Passage (1956) - Michael McClure
In Defense of Earth (1956) - Kenneth Rexroth
On The Road (1957) - Jack Kerouac
The White Negro (1957) - Norman Mailer
Yugen (1958) - LeRoy Jones and Hettie Cohen
Bomb (1958) - Gregory Corso
The Subterranean (1958) - Jack Kerouac
This Kind of Bird Flies Backwards (1958) - Diana Di Prima
A Coney Island Mind (1958) - Lawrence Ferlinghetti
Ekstasis (1959) - Philip Lamentia
Naked Lunch (1959) - William Burroughs
Narcotica (1959) - Philip Lamentia
Myths & Texts (1960) - Gary Snyder
Self-Portrait from Another Direction (1960) - Philip Whalen
Beatitude Anthology (1960) - Lawrence Ferlinghetti
Minutes To Go (1960) - Brion Gysin, William Burroughs, Gregory Corso e Sinclair Belles
Nobody Knows My Name (1961) - James Baldwin
The Soft Machine (1961) - Williams Burroughs
Preface To A Twenty Volume Suicide Note (1961) - LeRoi Jones
One Flew Over The Cuckoo's Nest (1962) - Ken Kesey
Poems From Jail (1963) - Ed Sanders
Reality Sandwiches (1963) - Allen Ginsburg
Get Home Free (1964) - John Clellon Holmes
The Psychedelic Experience (1964) - Timothy Leary
Nova Express (1964) - William Burroughs
Where Is Vietnam? (1965) - Lawrence Ferlinghetti
Huncke's Journal (1965) - Herbert Huncke
Solitude Crowded With Loneliness (1965) - Bob Kaufman
Desolation Angels (1965) - Jack Kerouac
Ways To Beat The Draft (1966) - Tuli Kauferberg
Mishaps, Perhaps (1966) - Carl Solomon
Satori In Paris (1966) - Jack Kerouac
Word Alchemy (1967) - Lenore Kandel
Nothing More To Declare (1967) - John Clellon Holmes
The Back Country (1968) - Gary Snyder
Memories Of A Beatnik (1969) - Diana di Prima
Tyrannus Nix? (1969) - Lawrence Ferlinghetti
The First Third (1971) - Neal Cassady
Tales of Beatnik Glory (1975) - Ed Sanders
Heart Beat - My Life With Jack And Neal (1976) - Carolyn Cassady
Clean Asshole Poems And Smiling Vegetables Songs (1978) - Peter Orlosvsky
The Day That Superman Died (1980) - Ken Kesey.

Citações:

"A palavra Humano é um adjetivo e seu uso como um nome é em si, lamentável." - William Burroughs

"Quando te pego no meu quarto a só, fingindo que estás dormindo, espero que algum dia você consiga se foder e chegar assim a alguma conclusão quanto ao amor." - Allen Ginsberg

"Minha intuição dizia que esse tal de Ginsberg era apenas a vanguarda de algo maior que viria. Todas as pessoas que como eu, escreviam coisas, apenas para ouvir que jamais seria publicado, agora poderiam finalmente dar um passo à frente e contar seus casos." - Diane Di Prima

"O que torna a linguagem hip uma linguagem especial é o fato que realmente não pode ser ensinado, caso não haja da pessoa uma vivência em comum de relação ou exaustão, que ela é capaz de descrever." - Norman Mailer

"Linguagem é um virus da palavra. Digo que a palavra é um vírus, sendo que um vírus que atingiu equilíbrio com seu hóspede. Ele se multiplica dentro da célula sem feri-la. Pensamos que usamos a palavra, mas na realidade ela é que nos usa. - William Burroughs

"Quão tintilante é aquela primeira picada. Ao mesmo tempo sutilmente doloroso, embora nem tanto, enquanto o olho vigia e então rapidamente tira o olhar, apenas para novamente ficar consciente à pequena pressão contra a parede exterior da veia que aguarda, um instante rejeitando e em seguida antecipando esperançosamente o momento de penetração e reconhecendo as sensações sentidas enquanto aquele pequeno ponto entra na corrente sanguínea, visto pelo vidro da primeira seringa, iniciando um curso de pressão remetendo de volta para a corrente originária diluído com uma maravilhosa nova sensação. Uma vez sentido, jamais esquecido." - Herbert Hunke

"Mentes! Novos amantes! Geração louca! Descendo as pedras do Tempo.
Risadas realmente sagradas no rio! Eles viram tudo! Os olhos alucinados! Os berros sagrados!
Eles deram adeus! Eles pularam do telhado! Para a solitude! Acenando! Carregando flores! Descendo o rio! Desaguando nas ruas!" - Alan Ginsberg.

(Faz-se necessário agradecer e destacar as fontes desta matéria. Primeiro, o livro que me inspirou a escrever este texto, "Beat Down To Your Soul" de Ann Charters. Pesquisa adicional inclui "Painting Beat By Numbers" de Michael McClure, e "Jack's Book" de Barry Clifford e Lawrence Lee).