domingo, 17 de julho de 2011

o que eles querem - Charles Bukowski

Vallejo escrevendo sobre
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sifílis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cerébro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra o muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
- é isso o que eles querem:
o danado de um show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranquilos
seguros
admiradores de
carnavais.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Paulo Leminski - Poemas

Redonda. Não, nunca vai ser redonda
Essa louca vida minha
Essa minha vida quadrada,
Quadra, quadrinha,
Não, nada,
Essa vida não vai ser minha.

Vida quebrada ao meio,
Você nunca disse a que veio



No Instante do entanto

Diga minha poesia
E esqueça-me se for capaz
Siga e depois me diga
Quem ganhou aquela briga
Entre o quanto e o tanto faz


Olinda Wischral

Pessoas deviam poder evaporar
Quando quisessem
Não deixar por aí
Lembranças pedaços carcaças
Gotas de sangue caveiras esqueletos
E esses apertos no coração
Que não me deixam dormir


Take P/Bere

Foi tudo muito súbito
Tudo muito susto
Tudo assim como a resposta
Fica quando chega a pergunta

Esse isso meio assunto
Que é quando a gente está longe
E continua junto



Esse planeta, às vezes , cansa,
Almas pretas com suas caras brancas
Suas noites de briga barba,
Sujas tardes de água mansa,
Minutos de luz e pavor

Casa cheia de doce,
Ondas tinindo de dor,
Acabou-se o que era amargo,
Pisar este planeta
Como quem esmaga uma flor



Misto de Tédio e Mistério
Meio dia / meio termo
Incerto ver nesse inverno
Medo que a noite tem
Que o dia acorde mais cedo
E seja eterno o amanhecer



Nunca sei ao certo
Se sou um menino de dúvidas
Ou um homem de fé

Certezas o vento leva
Só dúvidas continuam de pé


domingo, 10 de julho de 2011

Let’s Play That - Torquato Neto


quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Cut-Up - William Burroughs

“A vida é um cut-up.
O que é a vida senão uma seqüência mais ou menos ilógica de acontecimentos
que não se prestam a nenhum segundo para fazer sentido?
A cada vez que se olha pela janela ou que se anda pela rua, a consciência 
descreve círculos, vai de frente para trás e vice-versa [...] uma das tarefas da
arte é chegar o mais perto possível do mecanismo da percepção. (1973)"


Um pouco mais de Cut-Up aqui: Cut-up

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Já vi mendigos demais com os olhos vidrados bebendo - Charles Bukowski

já vi mendigos demais com os olhos vidrados bebendo
vinho barato debaixo da ponte
você se senta comigo
no sofá
nesta noite
nova mulher.
você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?
eles mostram a morte.
e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?
nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.
enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito
se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.

domingo, 3 de julho de 2011

Feno para os Cavalos - Gary Snyder


Hay For The Horses


Ele dirigiu metade da noite
Vindo longe de San Joaquin
Atravessando Mariposa, acima
Nas perigosas estradas da serra,
E descarregou às oito da manhã
A carga de fardos de feno
atrás do celeiro.
Com guinchos, cordas e ganchos
Nós amontoamos todos os fardos
Até o madeirame rubro do telhado
Alto no escuro, farpas de alfafa
Giravam nas frestas de luz,
Coceira de pó de feno adentra
Calçados e roupas suorentas.
Almoço sob o escuro carvalho
Fora do aquecido curral,
- A velha égua farejando baldes de ração,
Gafanhotos estalando na grama -
“Estou com 68” ele disse,
“Passei a juntar feno aos 17.
Pensei quando comecei naquele dia,
Que odiaria fazer isso a vida toda.
E dane-se, eis o que
Tenho feito e refeito.”


trad. Leonardo de Magalhaens
.

Hay For The Horses
He had driven half the night
From far down San Joaquin
Through Mariposa, up the
Dangerous mountain roads,
And pulled in at eight a.m.
With his big truckload of hay
behind the barn.
With winch and ropes and hooks
We stacked the bales up clean
To splintery redwood rafters
High in the dark, flecks of alfalfa
Whirling through shingle-cracks of light,
Itch of haydust in the
sweaty shirt and shoes.
At lunchtime under Black oak
Out in the hot corral,
--The old mare nosing lunchpails,
Grasshoppers crackling in the weeds --
"I'm sixty-eight" he said,
"I first bucked hay when I was seventeen.
I thought, that day I started,
I sure would hate to do this all my life.
And dammit, that's just what
I've gone and done."
...


Canção do Amanhã - Gary Snyder

Os states lentamente  perderam seu mandato
da metade até o fim do século
nunca deram às montanhas e rios,
árvores e animais,   
um voto.  
todas as pessoas os repudiaram
mitos morrem;
até  continentes são impermanentes
Turtle Island* retornou 
meu amigo abriu fezes secas de coiote
retirou um dente de roedor
perfurou e pendurou
numa argola de ouro
na sua orelha.
Olhamos pro futuro com prazer
não precisamos de combustível fóssil
obtemos poder de nosso interior
crescemos fortes com menos.
Agarramos as ferramentas
e nos movemos no ritmo lado a lado 
lampejos de lucidez e de conhecimento
olho no olho                                                
sentados quietos como gatos ou pedras
tão completos e seguros
como o céu noturno azulado.
dóceis e inocentes como lobos 
tão enganosos como um príncipe.   
No trabalho e em nosso lugar:   
a serviço
do mundo selvagem
da vida
da morte
dos seios da Mãe!